sábado, 1 de março de 2008

BIG BROTHER BRASIL

Há tempos desisti de consertar o Brasil. Desisti da utopia de um país justo, igualitário socialmente, íntegro e honesto. Há tempos desisti de transformar essa zona numa Finlândia. Já se foi o tempo em que panfletava por um Brasil austero, culto e ético. Que as ruas fossem limpas, que o uso do português fosse correto, que a leitura fosse hábito da população e que os debates intelectuais da TV Educativa fossem líderes do IBOPE. Que não houvesse mais camelôs nas ruas, crianças nos sinais e adultos analfabetos. Delirava por um país em que a música brasileira de qualidade estivesse entre as mais ouvidas e que as livrarias vivessem cheias. Mas, como disse, desisti.
Talvez o tempo que passa e as porradas que a gente leva, nos tornem mais acomodados. Talvez nos tornem menos aguerridos, mais cansados. Talvez mais burros.
O fato é que a cada dia que passa me sinto menos intelectual, apesar de saber bem mais do que sabia há 20 anos atrás. Porque, para ser intelectual é obrigatório se sentir intelectual. E, atualmente, se sentir intelectual, pra mim, é tão chato quanto assistir a uma apresentação do ballet Bolshoi no Teatro Municipal. Talvez possa ser isso um sintoma de nossa época, em que o imediatismo das informações, a escassez do tempo e o entretenimento a qualquer custo nos tornam escravos de sua rotina. Há muito que não tenho mais paciência para ver um filme de Buñuel ou para ouvir música clássica. Já faz tempo que a ida a algum museu não entra no meu item “diversão”. Sumiu-me da memória a última vez em que abri algum enorme livro de Filosofia. Sempre surgem sentimentos de culpa, mas, no final, a conclusão é quase sempre a mesma: tudo isso é muito chato. E, de fato, é. Ou alguém tem saudades das missas em latim ?
Dia desses, tive que me definir em um site de relacionamentos da Internet. Perguntaram-me sobre gostos pessoais, como músicas, livros, filmes e programas de tv. Fiquei horas tentando responder, a fim de encontrar as melhores respostas. Melhores, no sentido de como me veriam, do que seria mais interessante responder a fim de divulgar minha boa imagem de escritor intelectualizado. Pois eu desisti de ser o que não sou, assim como eu desisti de ser de um Brasil que não é. Desisti dos vinhos do Renato Machado, pois eu gosto de vinho doce, gelado e barato. Gosto de feijão, arroz, bife e batata frita. Acompanho as fofocas da tv e do cinema e acho o Wagner Montes um bom apresentador. Vejo grandes qualidades na literatura do Paulo Coelho e considero o funk um movimento cultural da música popular brasileira. Hoje em dia não tenho mais vergonha de dizer que acho o cinema novo um saco e que, filmes brasileiros, pra mim, só existiram dois: Cidade de Deus e Tropa de Elite. Tudo bem, velhos hábitos não consegui deixar: ainda amo Chico, Caetano, Milton e Tom (isso ainda é ser cult ?), ainda adoro ir a exposições no CCBB e ler os grossos livros do Elio Gaspari. Mas, nas noites de domingo e terça-feira, não liguem pra mim: meu único interesse na vida é assistir ao BBB na Globo.
Pronto, lá vou eu para o paredão.

ANDRÉ FAXAS

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