quinta-feira, 6 de março de 2008

NÃO HÁ VAGAS PARA ATORES

Têm coisas que nunca mudam. Por mais que nos façam digitais, eletrônicos e frios, que nos tirem o tempo, que nos façam esquecer das coisas simples da vida, certas coisas não mudam. Por mais que o dinheiro nos governe, nos oprima e escravize, certas coisas não mudam. Por mais que o mundo nos pareça feio, sem graça e fútil, nada muda um sonho. Ninguém pode nos tirar o tesão, o prazer, a cachaça.
Dia desses, precisei de um ator para uma de minhas peças infantis. Coloquei anúncio em jornais, na Internet, no orkut. Oferecia, no anúncio, cinqüenta reais por apresentação da peça, normalmente realizada em escolas particulares de ensino fundamental. Centenas de pessoas ligaram, gente qualificada, muitos com nível superior em artes cênicas. Infelizmente, só dispunha de uma vaga, que foi rapidamente preenchida. Cito isso, pois apesar do valor pequeno, mesmo sendo o máximo que poderia pagar em relação ao que arrecado, ainda é muito dentro do que se paga a atores no Brasil. Isto é, se pagam.
Dinheiro e Teatro nunca tiveram uma boa relação. Talvez por culpa de nós mesmos, profissionais, que nunca nos fizemos fortes às tentações da paixão. Tentações de estar no palco, sentindo cheiro da madeira, nos mostrando, nos exibindo, sendo o centro das atenções. Tesão por viver outras vidas, por fingir, mentir, ser livre. Mas essa paixão e esse tesão têm um preço: o da sobrevivência do dia-a-dia. E ela, a sobrevivência, em qualquer tempo, nunca foi de privilegiar o glamour e o ego. Ela é dura, firme, pragmática. Ela precisa de liquidez, de dinheiro.
Fora a meia-dúzia de privilegiados que recebem seus ordenados na Globo, somos uma massa repleta de gente capacitada e apaixonada, que se vê obrigada a mudar de área para sobreviver. Não por falta de talento e dedicação, mas, sobretudo, por falta de sorte. Pois, em um meio que só cabem mil, sendo nós trinta mil, temos uma chance em trinta de sobreviver daquilo que nos é o bálsamo. Pobre do Brasil, que não constrói Teatros. Pobre do Brasil, que não educa suas crianças no valor à cultura cênica. Pobre de nós e de nossa paixão.
Mas ela não acaba. Cada dia que passa, mais apaixonados se deleitam. Mais sonhos surgem, mais decepções acontecem, como em toda paixão. Basta visitar uma escola de teatro, para vermos como se renova esse vício. Pena, que todos nós sabemos, mesmo que não queiramos, pois todo ator é um vaidoso por natureza, que pouquíssimos poderão escrever “ator” em qualquer formulário que exijam o nome da sua profissão. Pois, ser ator, de fato, é sobreviver de seu ofício. E, pra isso, meu chapa, não é mole não. É morder a rapadura sem os dentes.
No entanto, eu continuo esfolando meus punhos na ponta da faca. Talvez porque ainda não inventaram o “AA”. Similar aos Alcoólicos Anônimos, poderiam criar os “Atores Anônimos”, gente que precisa se livrar desse vício desgraçado. Gente que não precise fazer animação de festas e teatro em escolas, pra descolar um troco. Talvez um bom emprego público, uma casa própria com carro na garagem e uma vida pacata, familiar. Nada de spots de luz, de camarins e ensaios. Nada de viver uma vida que não é a sua, de fato. O melhor é sobreviver numa vidinha chata, mas com a carteira assinada, FGTS, PIS-PASEP e Previdência Social. Desculpe, mas vão à merda !
Há tempos desisti de atuar. Prefiro escrever, que, de uma forma ou de outra, também é uma forma de viver a vida dos outros. Melhor ainda, eu posso decidir seus destinos, sendo o ator de todos os papéis. Só peço desculpas a meus colegas, por não poder ceder gratuitamente os direitos autorais de minhas peças. Sei das dificuldades de vocês, mas minha filha também precisa comer e estudar.
E nessa vida de guerra a gente vai levando, um contra o outro, um ao lado do outro e todos contra nós. Na briga dos egos, no final da história, todos nos fodemos, ou levamos um creu, para melhor atualizar o fato. Que a Petrobrás e as telecons da vida continuem a encher os burros dos que já têm muito. Que a elite continue com sua pauta na meia dúzia de Teatros que dispomos. Que gastem seus dobrões de ouro na compra de textos estrangeiros e que continuem, como elite que são, a expor sua paixão à meia-dúzia de endinheirados nos mini-teatros dos shoppings da zona sul.
É, chega de glamour. Torço para que a massa vá ao povo. E o que, do povo, suado, trabalhador, repleto de sonhos, nos surja a redenção. Que dele nos venha o pão, o reconhecimento, nossa carteira assinada. Que nos mudemos dos conjugados alugados da zona sul e que façamos o Teatro que o povo quer e precisa. Pois a marca da cachaça é a mesma, barata e deliciosa.
Aliás, uma boa notícia no final do crônica: tocou o terceiro sinal.


ANDRÉ FAXAS

quarta-feira, 5 de março de 2008

UMA GERAÇÃO BURRA

Nunca pensei que meu lado reacionário fosse despertar um dia. Logo eu, moderninho assumido, liberal convicto e democrata de índole. Logo eu, todo prosa por minha mente jovem e aberta, estou aqui para rejeitar o novo. Talvez mais, talvez lamento ao novo. Pois, o que surge e o que se promete surgir, está muito aquém do desejável.
Minha geração surgiu numa entressafra: tínhamos a missão de substituir duas gerações brilhantes, mesmo sem possuir a genialidade dos 60 ou sem a rebeldia dos 70. Como diria o mítico Renato Russo, éramos os “filhos da revolução”: jovens que tiveram uma infância farta, devido ao milagre econômico dos militares e educados seguindo os rigores da caserna do Estado. Estudávamos “Educação Moral e Cívica” no primário e catecismo na igreja. Quase nada sabíamos, além daquilo que o regime vigente nos permitia saber. Tesão, só nos seios minguados da Sônia Braga e nas pornochanchadas rodrigueanas exibidas nas madrugadas da Bandeirantes. Música, só Roberto Carlos para os românticos e Sidney Magal para os animados. Televisão, apenas o Sítio do Pica-Pau Amarelo para às crianças e novelas da Janete Clair para os adultos. Tínhamos tudo para ser uma geração de merda, apesar das qualidades do Sítio, da Janete, da Sônia Braga, do Roberto Carlos e até mesmo do Sidney Magal, o MC Creu da época. Mas, felizmente, não fomos. Mesmo inferiores intelectualmente a nossos antecessores, conseguimos dar a volta por cima e deixamos boas coisas na História.
Toda minha geração nasceu aos dez, onze anos de idade. Viemos ao mundo em 1985, com a abertura política. De repente, um furacão de informações a nós sonegadas, inundava as mentes, como se uma década de cegueira recebesse córneas novas. Do nada, nos surgiam Chico e Caetano, Karl Marx, Fernando Gabeira, “O Último Tango em Paris”. De repente, livros foram devorados com a fome de um Ogro. Verdades absolutas poderiam ser contestadas e a rebeldia típica da juventude poderia, enfim, fluir. Os filhos da revolução puderam então lançar seus ícones e desenvolver uma consciência crítica do mundo. Tudo bem, nada assim tão relevante, mas dificilmente um homem ou mulher acima dos trinta, fica calado em uma conversa sobre qualquer assunto na mesa de bar. Porque, nos anos 80, a cultura do saber estava interligada à da diversão. Saber, não necessariamente intelectual, acadêmico. Saber por saber, apenas. Por necessidade de sobrevivência, por tesão.
Queria muito evitar, neste artigo, o velho clichê “no meu tempo...” Queria também não escrever “mas hoje em dia...” No entanto, não vou conseguir não fazê-lo. Pois, no meu tempo, que por sinal é hoje, ser bom era ter conteúdo. Era ter personalidade, opinião. Era ter consciência do que ocorre no mundo, era posicionar-se em relação a qualquer coisa que lhe fosse questionada. No meu tempo, erros de português eram admitidos, mas frases indecifráveis pouco se viam. Vivemos na era da preguiça, da acomodação ignorante. Estamos em um tempo de mediocridade, de pobreza de espírito. E não digo isso apenas aos desprovidos do destino, que pouco acesso têm à educação. Escrevo para a juventude que estuda, que acessa a Internet. Que muito tem de técnica específica, mas pouco de criatividade. Que sabe tudo de informática, mas que ignora o nome do Ministro da Ciência e Tecnologia. Que não lê jornal, não opina sobre nada e que só vive em função do dinheiro e do prazer. Geração que não vai ao cinema e ao teatro. Geração que não deixará legado algum na música e na pintura. Tecnicistas, epicuristas e chatos, sob a manta do “politicamente correto”.
Presas fáceis dos demagogos e malandros acima dos trinta.

ANDRÉ FAXAS

terça-feira, 4 de março de 2008

O SOCIALISMO NÃO MORREU ?

Não responderei a pergunta do título da crônica, muito porque não tenho a resposta. Aliás, acho que tenho, mas não estou bem convicto de sua justificativa. Pois, se tratando de ideologia, quesitos essenciais como racionalismo e imparcialidade não têm seu devido valor. Claro, não vou me abster a dar uns pitacos, mas não esperem de mim algo significativo. Desde a década de 90, após a queda do muro de Berlim e o fim da União Soviética, que a maioria afirma que o socialismo acabou. De fato, apesar de se tratando de História, onde nenhum fenômeno tão recente pode ser considerado concluído, chegamos à mesma conclusão. Pouco sobrou do apogeu socialista das décadas de 50, 60 e 70: Cuba, massacrada economicamente pelo bloqueio dos EUA e sem Fidel; pequenas ditaduras trotkistas na Ásia e a grandiosa China, socialista politicamente, mas o maior capitalismo emergente do mundo. Quase nada, comparando-se ao período citado acima, quando os países que implantaram as doutrinas de Marx e Engels dividiam ao meio o mapa geopolítico do mundo. Estou puxando esse assunto porque, por incrível que pareça, apesar de ter seu atestado de óbito assinado, o socialismo parece que ainda respira por aparelhos.
E não é que, logo da América do Sul, desprezível em representatividade governamental ao socialismo em seu apogeu, o moribundo ameaça ressurgir. Logo do ventre dos derrotados pelas ditaduras militares de direita, estará renascendo a ideologia dos trabalhadores, dos camponeses e dos excluídos ? Bem que eu suspeitava que não acabariam com uma paixão tão avassaladora assim, simplesmente decretando o fim de um sistema político-econômico. Não se dá para apagar da alma um sonho, pois, apesar dos percalços e erros, ainda não soube de nada mais justo para se guiar os destinos de uma nação do que o socialismo. Gostos à parte, ressalvas também (a Stalin, aos sanguinários do leste europeu, aos populistas e às ditaduras vermelhas), gostaria de me aprofundar um pouco mais no nosso socialismo tropical. Socialismo de Hugo Chávez, sujeito chato, antipático e arrogante, mas extremamente carismático e competente. Socialismo de Evo Morález, líder indígena que tirou das mãos dos poderosos a tão sofrida Bolívia. Também populista, arrogante e prepotente, mas socialista, que é o que importa. Socialismo de Rafael Correa, presidente do Equador, a parte do triângulo que faltava. Hugo, Evo e Rafael, sem contar a esquerda moderada: Bachelet, Tabaré, Cristina e, claro, nosso Lula. Certamente essa turma deve tirar o sono do Bush, apesar do desgraçado ter problemas mais sérios pra resolver no oriente médio e no seu próprio país. Mas a chapa começou a esquentar por aqui e o circo ameaça pegar fogo. Os moderados devem estar morrendo de saudades do Sarney, do Alfonsín e do Sanguinetti, os presidentes-vaselina. Os reacionários devem estar doidos por um novo Pinochet, ícone da macheza militar da direita capitalista.
Não sei no que vai dar, mas estava precisando de adrenalina política na minha vida. Deu saudade da época em que pregava a luta armada, onde meu maior desejo era ver o fim do imperialismo americano. Mas, pensando bem, coitadinha da Colômbia e da nossa economia estabilizada e globalizada, já que vou ter que pagar as contas no fim do mês.
Sentar e conversar. Conselhos de um velho.

ANDRÉ FAXAS

sábado, 1 de março de 2008

BIG BROTHER BRASIL

Há tempos desisti de consertar o Brasil. Desisti da utopia de um país justo, igualitário socialmente, íntegro e honesto. Há tempos desisti de transformar essa zona numa Finlândia. Já se foi o tempo em que panfletava por um Brasil austero, culto e ético. Que as ruas fossem limpas, que o uso do português fosse correto, que a leitura fosse hábito da população e que os debates intelectuais da TV Educativa fossem líderes do IBOPE. Que não houvesse mais camelôs nas ruas, crianças nos sinais e adultos analfabetos. Delirava por um país em que a música brasileira de qualidade estivesse entre as mais ouvidas e que as livrarias vivessem cheias. Mas, como disse, desisti.
Talvez o tempo que passa e as porradas que a gente leva, nos tornem mais acomodados. Talvez nos tornem menos aguerridos, mais cansados. Talvez mais burros.
O fato é que a cada dia que passa me sinto menos intelectual, apesar de saber bem mais do que sabia há 20 anos atrás. Porque, para ser intelectual é obrigatório se sentir intelectual. E, atualmente, se sentir intelectual, pra mim, é tão chato quanto assistir a uma apresentação do ballet Bolshoi no Teatro Municipal. Talvez possa ser isso um sintoma de nossa época, em que o imediatismo das informações, a escassez do tempo e o entretenimento a qualquer custo nos tornam escravos de sua rotina. Há muito que não tenho mais paciência para ver um filme de Buñuel ou para ouvir música clássica. Já faz tempo que a ida a algum museu não entra no meu item “diversão”. Sumiu-me da memória a última vez em que abri algum enorme livro de Filosofia. Sempre surgem sentimentos de culpa, mas, no final, a conclusão é quase sempre a mesma: tudo isso é muito chato. E, de fato, é. Ou alguém tem saudades das missas em latim ?
Dia desses, tive que me definir em um site de relacionamentos da Internet. Perguntaram-me sobre gostos pessoais, como músicas, livros, filmes e programas de tv. Fiquei horas tentando responder, a fim de encontrar as melhores respostas. Melhores, no sentido de como me veriam, do que seria mais interessante responder a fim de divulgar minha boa imagem de escritor intelectualizado. Pois eu desisti de ser o que não sou, assim como eu desisti de ser de um Brasil que não é. Desisti dos vinhos do Renato Machado, pois eu gosto de vinho doce, gelado e barato. Gosto de feijão, arroz, bife e batata frita. Acompanho as fofocas da tv e do cinema e acho o Wagner Montes um bom apresentador. Vejo grandes qualidades na literatura do Paulo Coelho e considero o funk um movimento cultural da música popular brasileira. Hoje em dia não tenho mais vergonha de dizer que acho o cinema novo um saco e que, filmes brasileiros, pra mim, só existiram dois: Cidade de Deus e Tropa de Elite. Tudo bem, velhos hábitos não consegui deixar: ainda amo Chico, Caetano, Milton e Tom (isso ainda é ser cult ?), ainda adoro ir a exposições no CCBB e ler os grossos livros do Elio Gaspari. Mas, nas noites de domingo e terça-feira, não liguem pra mim: meu único interesse na vida é assistir ao BBB na Globo.
Pronto, lá vou eu para o paredão.

ANDRÉ FAXAS

domingo, 24 de fevereiro de 2008

FLAMENGO 2

roubo descarado, má sorte, sina. Não estou pra ninguém.

sábado, 23 de fevereiro de 2008

FLAMENGO



O pior é que nem bebi hoje. Suspeito de minha sanidade mental, já que nunca me imaginei escrevendo sequer o nome desse clube, quanto mais uma crônica sobre ele. Mas ando querendo exorcizar alguns fantasmas que me atormentam, e a única saída é escarrar minha sinceridade na folha de papel em branco.
Nesse domingo, meu Botafogo estará decidindo a Taça Guanabara no Maracanã. Poderia então, já que não faltaria inspiração e conteúdo para isso, escrever uma crônica apaixonada pelo time da estrela solitária. Mas como não consigo dar ordens ao teclado, sou obrigado a falar de nosso adversário desse domingo.
Eu sou de uma geração em que ser rubro-negro era quase uma obrigação. Também pudera, durante toda infância acompanhei a saga daquele time de Zico e cia. Time várias vezes campeão carioca, campeão brasileiro, da Libertadores e Mundial interclubes. Um esquadrão cuja escalação nunca me saiu da memória: Raul, Leandro, Figueiredo, Mozer e Júnior. Andrade, Adílio e Zico. Tita, Nunes e Lico. Um timaço. Talvez, em termo de clubes no Brasil, só comparado ao Santos de Pelé e ao Botafogo de Garrincha. Então, por que, um menino, no início da década de 80, não torceria por esse clube ? Pior: por que esse menino adotaria como seu clube de coração, um time que não ganhava nada há vários anos e que era o maior saco de pancadas de Zico e sua turma ? Por que esse bendito menino não se vestia de rubro-negro e saía com seus colegas comemorando as consecutivas glórias de seu clube ? Já pensei em inúmeras respostas a essa perguntas, mas consegui resumir em uma só: eu não quis a glória fácil. Preferi o caminho tortuoso da camisa alvinegra, preferi a minoria humilhada, a dor e a esperança da volta por cima. Porque ser Flamengo, até hoje, é muito fácil. Mesmo sem mais o Zico, é muito confortável estar ao lado da maioria, da massa, da maior torcida do Brasil. Deve ser muito bom encontrar pelas ruas uma enormidade de pessoas com a mesma camisa que a sua, deve dar orgulho vencer junto com o time, se tornando o décimo segundo jogador em campo. Muitos podem pensar: isso é inveja. E não nego, é sim. E muita.
Uma espécie de mistura de inveja com ódio, de recalque com mágoa. Mágoa por tantas dores a mim causadas, de tantas tardes de humilhação e silêncio. Tenho até hoje pesadelos com o seis a zero que Zico e cia. nos aplicaram em 81, com a banho na final do brasileirão de 92 e, ultimamente, com a decisão do carioca do ano passado. Isso sem contar das glórias deles em que estivemos ausentes, por absoluta falta de competência para acompanhá-los. Dou a mão à palmatória: os rubro-negros são mais vitoriosos que nós e mais felizes que nós. É o povo se livrando dos seus males através de uma paixão futebolística. Esquecendo da vida dura e suada, através de uma terapia baseada na catarse emocional coletiva da vitória. E nós, botafoguenses, também tão sofridos e suados, quase sempre continuamos nosso martírio aos domingos no maraca. Pois é, devem estar achando que já entreguei os pontos ou que essa crônica é pretexto de quem quer virar a casaca. Mas dessa vez é engano.
O menino dos anos 80 ainda vive intensamente dentro de mim. E o que ele gosta é do desafio, do risco e da singularidade. Porque, pra ele, é delicioso ser o destaque, ser o alvo, ser o diferente. Porque quando meu Botafogo ganha, só eu grito à vizinhança. E toda massa se cala, como em 1989, ou quando o time do Jairzinho aplicou o seis a zero neles no início da década de 70. E calar a massa me causa sempre um prazer equivalente a um orgasmo múltiplo ! Todos os arrogantes e prepotentes põem o rabo entra as pernas e se curvam ao solitário, ao mais fraco. Porque, desde a infância, percebi que era muito chato ser o que o outros eram. Deixar de ser indivíduo, para ser o todo. E não tenham dúvidas: do Botafoguense da Rua K todos sabem o nome.
É, não deu pra ser imparcial até o final, desculpem, mas o assunto é passional. Sobre nossa pendência desse domingo, prefiro não arriscar palpite. Mas algumas certezas eu já tenho: os rubro-negros vão incendiar o Mário Filho e a nação vai jogar junto; e eu, independente do resultado, vou ser o centro das atenções depois das seis da tarde.
Obrigado por tudo, Flamengo.

ANDRÉ FAXAS

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

LULA

Ontem ouvi na Band News FM uma notícia que me deixou estupefato: o Brasil conseguiu juntar o dinheiro para pagar a dívida externa. Mais que isso: mesmo pagando todo o valor, ainda sobrariam vários bilhões em reservas. Tenho trinta e cinco anos de idade e durante toda a minha vida sempre ouvi e li que o grande problema do nosso país era o pagamento dessa maldita dívida. Passei pelo fim da ditadura militar, pelo período “cruzado” do Sarney, pela era Collor, pelo Itamar e pelo almofadinha intelectual do FHC e seus tucanos. Durante todos esses anos, ouvi muito se falar de FMI, de moratória, de calote na dívida e de acordos de refinanciamento de débitos. Mas nunca, em tempo algum, ouvi a notícia que foi dada ontem: podemos pagar a dívida externa ! Para os mais novos pode parecer uma notícia como outra qualquer, mas, tenham certeza, não é. Durante mais de trinta anos, o Brasil pegou empréstimos com FMI para tampar buracos oriundos de gastos públicos excessivos. Precisou dos agiotas internacionais para salvar-se de sua própria incompetência de gestão. Nosso país gastava mais do que arrecadava e, com isso, como na nossa vida financeira, precisava de recursos de terceiros para não quebrar. Com isso, o montante foi crescendo, os juros se multiplicando e o dinheiro que deveria ser gasto com saúde, educação e infra-estrutura foi, obviamente, minguando. Muito do estado lamentável em que se encontram nossos serviços públicos essenciais é resultado desse matemática. Portanto, o que estou relatando é um fato concreto, não uma opinião pessoal. Aliás, opinião pessoal vou dar a partir de agora.
Durante a adolescência, orgulhava-me do meu “botton” que usava no peito. Um “botton” branco, com uma grande estrela vermelha onde lia-se a sigla “PT”. Tinha absoluta convicção que ali estava a resolução de todos os problemas sociais de nosso país. Que o PT significava a mudança, o conserto dos males e a expulsão´daqueles que nos roubavam e reprimiam. Que o socialismo era a opção correta para um país que necessitava exterminar as desigualdades e impor um modelo de justiça social, liderada por aqueles que mais sofriam, os trabalhadores. Eu queria também que os Estados Unidos sucumbissem (para não dizer se fodessem – aliás, ainda quero), que a Coca-Cola fosse extinta do país e que a Globo fosse estatizada. Reivindicava até mesmo o confisco do bens dos ricos e a luta armada por parte da classe proletariada. Mas a juventude passou. E passou para o PT também.
Quando o PT venceu a eleição de 2002, pensei: chegou nossa vez. Mesmo não tão louco e jovem como antes, ainda pairava em mim a indignação, a rebeldia. Ainda via pelas as ruas a miséria e a ignorância. Ainda via crianças nos sinais e pais de família sem trabalho. Ainda via poucos com muito e muitos com pouco. Estava ali minha redenção: o PT estava no poder e seria um exemplo de um governo sério, honesto, firme e justo. Apesar de ateu, dei graças a Deus pela debandada dos tucanos liberais e dos reacionários do PFL. Os trabalhadores tomavam o poder no lugar do patrões e, enfim, a justiça social seria feita em nosso país. Viria a reforma agrária, a educação e saúde nos moldes cubanos, a transparência na gestão e o fim da corrupção. Porém... ah, os poréns da vida, pouco ou nada disso se concretizou. O que eu vi foi a manutenção de uma política econômica conservadora, vi as mesmas caras de sempre comandando os ministérios, vi alianças com a direita populista e o pior, vi muita, muita corrupção. Vi Valdomiro Diniz, vi Marcos Valério, vi Delúbio, vi mensalão. Vi José Dirceu e José Genuíno, dois ícones da minha formação política, envolvidos até o pescoço em esquemas de caixa 2, tráfico de influência, prevaricação e desvio de dinheiro público. Todos os meus sonhos foram para o ralo e a decepção tomou conta de mim. Decepção e indignação com aqueles que, eu julgava ser, ilibados, dignos e honestos, como a maioria dos trabalhadores do Brasil. Quebrei a cara. Falando em cara, teve um que livrou a sua.
Até agora não mencionei o nome citado no título da crônica, mas, não tenham dúvidas, ele venceu o jogo. Venceu pela astúcia, pela inteligência, pela destreza. Uma vitória de quem passou quase intocado por tudo que o PT passou. Talvez por sua simpatia, seu carisma, sua barba grisalha e seu linguajar popular que, inevitavelmente nos tocam e nos inspiram uma confiança inexplicável, apesar dos despautérios que ocorreram e ocorrem. Mas ele é o cara. O cara que pagou a dívida externa ! O cara que tirou da miséria total cerca de 5 milhões de brasileiros, através do bolsa-família. O cara que me faz ter um padrão de vida que nunca antes supus obter (mesmo na juventude). E isso é fato, não opinião pessoal. Pois é, acho que o PT se foi. Ou alguém pode citar um nome do partido capaz de vencer a eleição em 2010 ? Que enfrente a maldita tucanada e seus reacionários demos ? Bem, do futuro, definitivamente, nada sei. Assim como deletei Marx e Engels na minha memória, posso fazer o mesmo com a decepção moral que tive. Afinal, sou brasileiro, e sempre dou uma cervejinha para o guarda quando o IPVA do meu carro está atrasado. E vou continuar amando e odiando o barbudinho pernambucano, pois ele é mais ou menos como nós: tem tudo pra dar errado, mas deu certo.

ANDRÉ FAXAS